Projeto Enfrentamento da Crise da Profissão de Jornalista - Enprojor

Gostaria de começar com uma afirmação e uma pergunta que devem funcionar como provocações: nós temos indignação e energia para lutar pela situação das e dos jornalistas, mas como?
O Projeto Enfrentamento da Crise da Profissão de Jornalista (Enprojor) quer ser uma espécie de GPS nesse percurso. A inspiração veio, em parte, do grupo GPS-Jor (Governança, Produção e Sustentabilidade no Jornalismo), da UFSC. Escolheram a sigla justamente para evocar o sentido de algo que orienta em uma estrada por onde não sabemos como chegar aonde queremos. Uma das pistas é entender que o jornalismo precisa atender melhor seus públicos.
Um estudo elaborado por pesquisadores do GPS-Jor serviu como modelo para nós. Trata-se da obra Jornalismo local a serviço dos públicos: como práticas de governança social podem oferecer respostas à crise do jornalismo (MICK; CHRISTOFOLETTI; LIMA, 2021). O diferencial do Enprojor é que ele não fala apenas de "jornalismo"; ele fala e promove ações de e com jornalistas, utilizando falas de profissionais para ilustrar as reflexões teóricas.
Trata-se de uma pesquisa de doutorado em Cognição e Linguagem, em uma linha que envolve comunicação e tecnologias da informação, no Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (PPGCL – Uenf), de Campos dos Goytacazes-RJ. A tese foi defendida e aprovada em 03/07/2025.
Realizamos oito encontros on-line, com uma hora e meia de duração, entre 2022 e 2024. Formamos uma Comunidade de Pesquisa e Prática (CPP) com cerca de 50 integrantes, sendo que consideramos membros da CPP todos e todas que participaram de ao menos um encontro. Do grupo, 27 pessoas contribuíram com 41 depoimentos citados na tese, variando entre uma e quatro citações por integrante. Contando as presenças repetidas, foram aproximadamente 100 participações.
Durante três anos, em 100 oportunidades e oito reuniões, jornalistas dedicaram a noite de um dia útil a uma reflexão continuada, buscando saídas para a própria crise profissional. A metodologia utilizada foi a Pesquisa-Ação (PA), da qual Paulo Freire foi um dos fundadores. Encontramos uma aproximação também com Jürgen Habermas e sua Teoria da Ação Comunicativa, que prevê um método dual com dois tipos de pesquisadores: os detentores dos saberes das ciências sociais e os possuidores dos saberes práticos.
Dividimos o desafio em frentes de luta. Abordamos a luta sindical, desconstruindo o mito de que os sindicatos são necessariamente ineficazes. Outras frentes importantes são as dos novos modelos de comunicação e novos arranjos de trabalho. Fake news, desinformação e pós-verdade compõem uma luta à parte.
Sob muitos aspectos, a frente mais importante é a plataformização do jornalismo; ou seja, a veiculação do noticiário por plataformas como X (ex-Twitter), Instagram e Facebook, que está destruindo jornais e emissoras de rádio e TV. Abordamos também a questão do ensino do jornalismo, denunciando a falsa oposição entre professores teóricos (acadêmicos) e professores práticos (jornalistas das redações).
Outra vertente da nossa pesquisa é a da identidade profissional. Existem características comuns aos praticantes desse ofício? São intelectuais ou operários da informação? Acreditamos que sejam ambos. Também estudamos o papel do cinema na construção do imaginário que a sociedade tem do jornalista. Para isso, recorremos a uma análise do filme Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976), com Robert Redford e Dustin Hoffman interpretando Bob Woodward e Carl Bernstein, respectivamente. Concluímos que a sétima arte também molda os próprios profissionais.
Utilizamos ainda a Análise do Discurso, disciplina da linguística que verifica as relações de poder manifestas — clara ou veladamente — nas estratégias discursivas de um sujeito ou grupo. Desconstruímos, assim, as estratégias do jornalista Caio Tulio Costa em seu artigo intitulado "Sobre o Diploma", de 2009. Caio trabalhou por décadas na Folha de S.Paulo, veículo que mais atuou pelo fim da exigência do diploma.
O antifascismo é uma luta por excelência do Enprojor. Propomos a expressão neotecnofascismo, que seria uma versão atual do fantasma antipolítico que volta a aterrorizar a humanidade. Opomos a essa ameaça o jornalismo como "quarto poder". Propomos uma ressignificação desse conceito, rejeitado por muitos autores, a partir de uma reviravolta ética liderada por jornalistas. A estratégia de resgatar o conceito de quarto poder visa influir no sistema de freios e contrapesos que regula os três poderes. Como parte dessa luta antifascista, temos ainda o objetivo de contribuir para que Bolsonaro seja responsabilizado por todos os crimes que cometeu contra jornalistas.
A luta pela volta da exigência do diploma é a principal frente do Enprojor e o tema do último capítulo da tese. Destaca-se, entre os autores abordados, Fernanda Lima Lopes, com sua obra Ser Jornalista no Brasil: Identidade profissional e formação acadêmica (2014). Ela equipara o ofício à medicina e ao direito em termos de importância e necessidade de aprendizado profissional.
Eis algumas ações concretas com as quais o Enprojor colabora:
- Campanhas para sindicalização, a fim de fortalecer o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro;
- Contribuições para uma revitalização da vida sindical no RJ;
- Confraternizações, como o "Chope dos Jornalistas";
- Convocação da sociedade: todos os cidadãos perdem muito com o declínio do jornalismo e a ascensão do neotecnofascismo. É vital sensibilizarmos a sociedade com a nossa causa.
Para finalizar, temos consciência de que o Enprojor é um projeto recém-criado e pouco numeroso para os embates que deve travar. Porém, queremos nos unir a tantas outras iniciativas que já confrontam essas frentes para não ficarmos de braços cruzados diante da crise da nossa profissão.
*Por Marcello Riella Benites, jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, mestre e doutor em Cognição e Linguagem pela Uenf, autor dos livros "Pessoas que fazem a Economia de Comunhão" e "A origem da Mídia Ninja no discurso dos jornalistas".