Manifesto de Protagonismo dos Jornalistas diante da IA e Redes Sociais


Nós, as jornalistas e os jornalistas brasileiros, queremos e vamos vencer a crise da nossa profissão.

A IA e as redes sociais são as criações mais poderosas criadas pela humanidade, realizam um bem enorme, e podem fazer muito mais.

Dito isso, com relação às redes sociais e à IA, o que importa aos jornalistas não é demonizá-las ou não. É algo bem mais concreto: Como viver da nossa profissão, que é indispensável à democracia, no atual contexto tecnológico sem precedentes?

É muito mais que adaptar-nos ao que dá mais engajamento ou acompanhar o vertiginoso desenvolvimento dos usos da IA.

A tecnologia não é o sujeito. Queremos e vamos ser os personagens principais desse processo histórico. Mesmo em desvantagem e precisando aceitar algumas condições impostas, visando manter nossas famílias e pagar nossas contas, reivindicamos ser protagonistas num movimento de resistência.

Martin Heidegger advertia sobre a distinção entre "pensamento que calcula" e "pensamento que reflete". O "pensamento que calcula" gerou, desde os primórdios, o desenvolvimento tecnológico. A partir de Andrew Feenberg e Renato Dagnino, podemos dizer que as plataformas e dispositivos estão impregnados dos valores sociais e políticos das elites, que os idealizam e fabricam.

Nós, jornalistas, queremos e vamos disputar os lugares de "novos atores", não pertencentes às elites, na construção do cenário tecnológico, como pregam Feenberg e Dagnino, na lógica das plataformas.

Os valores elitistas configuram uma dominação imperceptível, a "hegemonia cultural" de Antonio Gramsci, que Néstor Canclini resgata para o cenário atual. Ela não se impõe pela força, mas pela concordância tácita dos explorados usuários da internet, que não percebem que entregam o "ouro em pó" de seus dados, de graça. Nós jornalistas, queremos e vamos combater essa hegemonia.

Inteligência artificial

Yuval Harari, fala de numerosos estudos afirmando que a IA já exibe como que uma "psique digital", e "uma mitologia intercomputadores", podendo, inclusive, ser racistas, misóginos, homofóbicos ou antissemitas. Seu uso no jornalismo facilitará a produção, mas cortará empregos em dimensão nunca vista. Como "máquinas de plágio" os agentes de Inteligência Artificial farão da pós-verdade o ar que respiramos. Nós, jornalistas queremos e vamos lutar contra esse processo.

Informacionalismo

Nos anos 1990, Manuel Castells afirmava que a informação havia se tornado um bem mais importante que os próprios produtos. No informacionalismo, uma fábrica poderia ser transferida para o outro lado do planeta, em prol do capital financeiro, em detrimento dos empregados locais. Nós, jornalistas, queremos e vamos enfrentar essa injustiça.

Plataformas

Nos anos 2000, Richard O'Reilly cunhou o conceito de "plataforma", como estrutura de empresa típica da Web 2.0. No "capitalismo de plataformas", as big techs como Instagram, TikTok, X e WhatsApp, o número de seguidores importa mais que os conteúdos que, assim se descolma da realidade na busca por audiência.

André Lemos define plataformização como um "regime sociotécnico" (ou seja, cultural) com vigilância, vidas reorganizadas em infraestruturas digitais, e dataficação: coleta e análise de dados das pessoas pra fins de marketing. Nós, jornalistas, lutaremos contra a plataformização do mundo e da existência.

Plataformização do jornalismo

E temos, consequentemente, a plataformização do jornalismo. As plataformas desbancaram as empresas de comunicação, na mediação da informação que chega ao público, dominando a circulação das notícias, tomando os algoritmos, e não o interesse público, como o critério de definição das pautas.

As pesquisas de Emilly Bell, Taylor Owen e Clay Shirky dominaram os estudos sobre crise do jornalismo nos anos 2000 e 2010, constatando que já não existia uma indústria jornalística nos moldes tradicionais, com seus prédios enormes, gráficas e logística de distribuições em bancas.

Para os executivos dos veículos de comunicação era necessário mudar o "modelo de negócios", cortando jornalistas e otimizando a produção (reduzindo investimentos na qualidade dos serviços jornalísticos)

Receituários neoliberais e "empreendedores de si mesmos"

O Enprojor defende que essas pesquisas são um verdadeiro receituário neoliberal para salvar o jornalismo sem os jornalistas. Nick Srnicek, no final dos anos 2010, vai nos explicar que o modelo de plataformização significa:

  • exploração do trabalho colaborativo dos usuários;
  • concentração de lucros em grandes corporações;
  • subordinação da visibilidade às lógicas algorítimicas de mercado;
  • e reorganização estrutural da produção de valor.

Para Rafael Grohmann, a gamificação do trabalho confere um falso aspecto lúdico, de intensa produção, por meio da auto-exploração e autoculpabilização da pessoa por não bater as metas autoimpostas como objetivos não atingidos nos games.

E aqui estamos falando dos trabalhadores, que são agora empreendedores de si, e exploram a si mesmos em prol dos donos das plataformas, conforme ensina Byun-Chull Han. Nós, jornalistas rejeitaremos todos os receituários neoliberais.

Era da vigilância

Em 2020, Shoshana Zuboff nos informou sobre a Era da Vigilância. Cada vez que digitamos o cpf numa farmácia, qualquer rastro que deixemos num dispositivo conectado à rede gera uma massa de dados que gera lucros absurdos. Nós, queremos e vamos nos opor.

Comunidade de Pequisa e Prática

Na nossa Comunidade de Pesquisa e Prática (CPP) do Enprojor, constatamos a dimensão concreta da crise.

Os relatos evidenciam:

  • repórteres de TV trabalhando sozinhos, sem equipe técnica;
  • uso de dispositivos dos próprios jornalistas para a cobertura;
  • precarização do jornalismo do interior;
  • acúmulo de funções;
  • exposição a riscos sem suporte institucional adequado.

Um dos relatos fala da repórter de TV que faz cobertura completa com celular, microfone e conexão própria, assumindo funções que antes eram distribuídas em equipes. Nós, jornalistas, repeliremos com vigor a cruel degradação de nossas vidas nesses trabalhos.

Conclusão

Nós, os jornalistas, não somos causadores dessa crise. Reivindicamos, porém, a linha de frente no combate a todo esse hostil contexto mercadológico, tecnológico e político

Não seremos passivos nas intensas disputas sobre as formas de existência e a função social nosso ofício. A tecnologia condicionará essas lutas, mas não determinará nosso futuro. Não aceitaremos a hegemonia da IA e das plataformas sem lutar.

A democracia brasileira está correndo sério risco, devido à desinformação às fake news e ao neotecnofascismo. A sociedade precisa compreender que as jornalistas e os jornalistas estão lutando pela reconstrução do jornalismo que eles são indispensáveis na defesa do estado democrático de direito.

Nós do Enprojor, além de nossas próprias ações, estamos envolvidos em sindicatos, coletivos e outras iniciativas de proteção a jornalistas, de defesa e promoção de seu papel de agente da democracia. Junte-se a nós!

Referências

BELL, Emily; OWEN, Taylor. A imprensa nas plataformas: como o Vale do Silício reestruturou o jornalismo. New York: Tow Center for Digital Journalism, 2017.

BELL, Emily; SHIRKY, Clay. Jornalismo pós-industrial: adaptação aos novos tempos. New York: Tow Center for Digital Journalism, 2014.

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CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 8. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

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GROHMANN. Rafael. Plataformização do trabalho: entre a dataficação, a financeirização e a racionalidade neoliberal. Eptic. v. 22, N 1, JAN.-ABR, 2020. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7284474 Acesso em: 8 nov. 2024.

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HEIDEGGER, Martin. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.

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SRNICEK, Nick. Capitalismo de plataforma. Buenos Aires: Caja Negra, 2018. (Original: Platform Capitalism, 2017).

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder.Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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