Manifesto de Protagonismo dos Jornalistas diante da IA e Redes Sociais


Este manifesto busca a força da prática e da teoria. Por isso está longo. Poderá ser alterado e diminuído, com a interação dos assinantes.



Com relação às redes sociais e à IA, a questão dos jornalistas e das jornalistas não é demonizá-las ou não. Não é uma questão religiosa. É algo bem mais concreto: Como viver da nossa profissão, que é indispensável à democracia, no atual contexto tecnológico sem precedentes?

E nosso ponto é também muito mais que adaptar-nos ao que dá mais engajamento ou acompanhar o vertiginoso desenvolvimento dos usos da IA, embora isso possa ser necessário para sobrevivermos.

Não admitimos, porém, que a tecnologia seja o sujeito do processo. Queremos e vamos ser os personagens principais desse processo histórico, de reorganização das condições de produção, circulação e validação da informação. Mesmo que estejamos em desvantagem e precisemos aceitar algumas condições impostas, visando manter nossas famílias e pagar nossas contas, queremos ser protagonistas num movimento de resistência.

Heidegger e os jornalistas como novos atores da produção tecnológica

Já nos anos 1950, Martin Heidegger advertia sobre a distinção entre "pensamento que calcula" e "pensamento que reflete". Ele nos indicava a serenidade para com as coisas e a abertura ao mistério (que não existe no mundo técnico), como formas de fazer uso dos objetos técnicos, porém, impedindo que "nos absorvam e esgotem a nossa natureza"

O pensamento que calcula gerou, ao longa da história, o desenvolvimento tecnológico. Hoje, a partir de Andrew Feenberg e Renato Dagnino, podemos dizer que as ferramentas, do computador ao celular, passando pelos acessórios para ter um perfil profissional bem-sucedido na internet, são impregnados dos valores sociais e políticos das elites, que idealizam e fabricam esses aparelhos.

Para subverter esse sistema, precisamos de novos atores, não pertencentes às elites, para a produção tecnológica. É o que pregam Feenberg e Dagnino. Propomos aqui que nós, jornalistas, estejamos entre esses novos autores que como usuários, contribuem, na lógica das plataformas, para a construção do cenário tecnológico.

Gramsci, Canclini e a hegemonia cultural da tecnologia

Outro ponto importante é que esses valores elitistas configuram uma dominação que não percebemos. É a chamada "hegemonia cultural", de Antonio Gramsci, que Néstor Canclini atualiza para o cenário atual. Ela não se impõe pela força, mas pela concordância tácita dos explorados, que a consideram justa, a partir de mitos como o da meritocracia, e o de que o trabalho dignifica o ser humano, por mais precário que seja. Assim tantas pessoas, em trabalhos sem quaisquer garantias nas redes, os consideram justos e satisfatórios.

Inteligência artificial

Yuval Harari afirmou em 2024 que numerosos estudos têm revelado que computadores chegam a exibir como que uma "psique digital", e "uma mitologia intercomputadores", podendo, inclusive, ser racistas, misóginos, homofóbicos ou antissemitas. Nesse contexto, a IA não é apenas uma inovação técnica, mas uma intensificação das disputas já existentes no campo da produção de informação. Seu uso no jornalismo facilitará a produção, mas, seguindo a tendência das invenções nesse campo, cortará empregos. E também, quanto ao conteúdo, poderá adicionar espessas camadas à atmosfera típica do nosso tempo impregnado de pós-verdade, uma época em que, para grande parte das pessoas, a verdade não importa mais.

Informacionalismo

Nos anos 1990, importantes estudos de Manuel Castells sobre a globalização deram conta de que a informação havia se tornado um bem mais importante que os próprios produtos, e até mesmo que o dinheiro. A esse fenômeno, foi dado o nome de "informacionalismo". Noinformacionalismo, uma fábrica poderia ser transferida de um lugar do planeta para outro, repentinamente, segundo os interesses do capital financeiro internacional, em detrimento dos empregados locais.

Plataformas

Já no início dos anos 2000, Richard O'Reilly cunhou o conceito de "plataforma", como estrutura de empresa típica da Web 2.0. No "capitalismo de plataformas", as big techs como Instagram, TikTok, X e WhatsApp, o número de seguidores é mais importante que os conteúdos, e os usuários trabalham para as empresas, incrementando seus produtos, de graça, conforme apontam autores como Nick Srnicek.

A plataformização, de acordo com André Lemos, é um regime social/técnico (ou seja, cultural) baseado em vigilância, reorganização da vida das pessoas por infraestruturas digitais, e dataficação, que é a coleta e análise dos dados dos usuários, para fins de marketing. Hoje, vivemos uma plataformização do mundo e da nossa própria existência no nível mais profundo.

E temos, consequentemente, a plataformização do jornalismo. As plataformas desbancaram as empresas de comunicação, na mediação da informação que chega ao público, dominando a circulação das notícias, tomando os algoritmos, e não o interesse público, como o critério de definição das pautas.

Receituários neoliberais para salvar o jornalismo sem os jornalistas

As pesquisas de Emilly Bell, Taylor Owen e Clay Shirky dominaram os estudos sobre crise do jornalismo nos anos 2000 e 2010, constatando que já não existia uma indústria jornalística nos moldes tradicionais, com seus grandes prédios, gráficas e logística de distribuições em bancas nas grandes e médias cidades.

Para os executivos dos veículos de comunicação, era necessário mudar o "modelo de negócios", cortando jornalistas e otimizando a produção, eufemismo para redução de investimentos na qualidade dos serviços jornalísticos.

O Enprojor defende que essas pesquisas são um verdadeiro receituário neoliberal que busca salvar o jornalismo sem os jornalistas, enfrentar a crise da imprensa sem enfrentar plenamente as condições de trabalho e a baixa remuneração dos jornalistas, profissionais fundamentais à democracia.

Lógicas algorítmicas, gamificação e autoexploração

Nick Srnicek, no final dos anos 2010, nos explicava que o modelo de plataformização significa:

  • exploração do trabalho colaborativo dos usuários;
  • concentração de lucros em grandes corporações;
  • subordinação da visibilidade às lógicas algorítimicas de mercado;
  • e reorganização estrutural da produção de valor.

De acordo com Rafael Grohmann, a gamificação do trabalho confere um falso aspecto lúdico, de intensificação da produtividade, por meio da auto-exploração e autoculpabilização das pessoas, por não bater as metas que elas mesmas se impõem, sofrendo como, nos objetivos não atingidos nos games.

E aqui estamos falando dos trabalhadores que são agora empreendedores de si, e exploram a si mesmos em prol dos donos das plataformas, conforme ensina Byun-Chull Han, também no início dos 2010.

Em 2020, Shoshana Zuboff nos traz a análise de um fenômeno que engole a própria globalização, o informacionalismo e a Era da Informação definida por Castells mais de duas décadas antes. Trata-se da Era da Vigilância. Absorvidos pelas Big Techs, cada vez que digitamos o cpf numa farmácia, e qualquer rastro que deixemos num dispositivo conectado à rede contribuem para uma massa de dados que gera lucros absurdos para as plataformas.

Uma comunidade de pesquisa e prática relata a dimensão concreta da crise

Na nossa Comunidade de Pesquisa e Prática (CPP) do Enprojor, constatamos a dimensão concreta da crise.

Os relatos evidenciam:

  • repórteres de TV trabalhando sozinhos, sem equipe técnica;
  • uso de dispositivos comprados pelos próprios jornalistas para a cobertura;
  • precarização do jornalismo n interior;
  • acúmulo de funções;
  • exposição a riscos sem suporte institucional adequado.

Foram compartilhados relatos como o da colega que foi beijada por um homem enquanto fazia um "ao vivo; a repórter de televisão que realiza cobertura completa com celular, microfone e conexão própria, assumindo integralmente funções que antes eram distribuídas em equipes.

Foi comentada também a dificuldade dos jornalistas que atuam no hard news para participar de coletivos e sindicatos da categoria, bem como do debate acadêmico e institucional sobre saídas para viabilizar a profissão, devido à sobrecarga e à fragmentação do trabalho cotidiano.

Reivindicar a linha de frente contra o cenário mais hostil possível

Nesse contexto, ganha força a ideia de trabalharmos tendo em vista o cenário mais hostil possível, não como pessimismo, mas como estratégia para compreender a profundidade estrutural da crise e agir para vencê-la.

Nós, os jornalistas e as jornalistas brasileiras enfrentamos uma crise profunda do jornalismo como instituição. Nós não somos causadores dessa crise. Reivindicamos a linha de frente no confrontamento de todo esse contexto mercadológico, tecnológico e político

Não seremos passivos nas intensas disputas sobre as formas de existência e a função social do jornalismo. A tecnologia condicionará essas lutas, mas não determinará nosso futuro.

Não aceitaremos a hegemonia da IA e das plataformas sem lutar. Sob o risco do fim da nossa profissão e da nossa democracia, a sociedade precisa compreender que as jornalistas e os jornalistas estão dispostos a tomar seu lugar como sujeitos da reconstrução do jornalismo, e na defesa do estado democrático de direito.

Nós do Enprojor, além de nossas próprias ações, estamos envolvidos em sindicatos, coletivos e outras iniciativas de proteção a jornalistas, de defesa e promoção de seu papel de agente da democracia. Junte-se a nós!

Referências

BELL, Emily; OWEN, Taylor. A imprensa nas plataformas: como o Vale do Silício reestruturou o jornalismo. New York: Tow Center for Digital Journalism, 2017.

BELL, Emily; SHIRKY, Clay. Jornalismo pós-industrial: adaptação aos novos tempos. New York: Tow Center for Digital Journalism, 2014.

BENITES, Marcello. Enfrentamento da crise da profissão de jornalista: Uma pesquisa-ação em Macaé (RJ) e cidades próximas (Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem) – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Campos dos Goytacazes, 2025.

CANCLINI, Néstor García. Cidadãos substituídos por algoritmos. Tradução de Diego A. Molina. São Paulo: Edusp, 2021.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

DAGNINO, Renato. Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas. Campina Grande: EDUEPB, 2014.

FEENBERG, Andrew. Transforming technology: a critical theory revisited. 2. ed. New York: Oxford University Press, 2002.

GRAMSCI, A. Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais, in: Cadernos do Cárcere, Vols. 1 e 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

GROHMANN. Rafael. Plataformização do trabalho: entre a dataficação, a financeirização e a racionalidade neoliberal. Eptic. v. 22, N 1, JAN.-ABR, 2020. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7284474 Acesso em: 8 nov. 2024.

HAN, B. Sociedade do Cansaço. Tradução Enio Paulo Giachini. Petropolis, Vozes, 2017.

HARARI, Yuval Noah. Nexus: uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

HEIDEGGER, Martin. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 2000..

LEMOS, André. O futuro da sociedade de plataformas no Brasil. Intercom, Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, v. 46, e2023115, 2023. Disponível em: https://revistas.intercom.org.br/index.php/revistaintercom/article/view/4545/2998. Acesso em: 17 maio 2025.

O'REILLY, Tim. What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. Sebastopol: O'Reilly Media, 2005.

SRNICEK, Nick. Capitalismo de plataforma. Buenos Aires: Caja Negra, 2018. (Original: Platform Capitalism, 2017).

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder.Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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